sábado, 8 de junho de 2013

Sobre a escrita, leitura e oralidade.

Minha mãe foi a pessoa que me alfabetizou.
Ela lia algumas tirinhas de jornal e gibis que meu pai comprava. Colocava toda a entonação possível e estimulava ainda mais a imaginação. Era muito prazeroso ouvi-la!
Depois veio o Caminho Suave que abriu as portas para minha independência e assim pude começar a ler sozinho o que via pela frente: pequenos livros de histórias infantis, gibis do Recruta Zero (tenho até uma foto pra comprovar) e outras publicações para garotos daquela faixa etária.
Um dia, ganhei um caderno que se chamava “de linguagem” e aí me ensinou a escrever. Como tinha uma letra medonha, passei a escrever em um caderno de caligrafia, aquela com uma linhazinha auxiliar, para tentar dar algum significado plausível à tudo aquilo. Não deu muito certo. Talvez por isso eu não tinha motivação para escrever. Mas incentivo para ler não faltava! Quando entrei na escola, meu pai comprou, com muito sacrifício, a coleção da BARSA ou Enciclopédia Britânica e a tudo aquilo juntou-se um dicionário chamado Lello que possuía sua juventude. Posso afirmar que li quase tudo o que continha lá. Na escola, sempre que se pedia um trabalho ou pesquisa, era lá que encontrava o conteúdo para fazê-los.
Mas escrever continuava a ser um grande problema! Nunca ganhei acima de 8 nas minhas redações. Pelo contrário, quando a professora de Língua Portuguesa precisava de um contra exemplo, adivinhe qual redação ela lia? Acho que ela passava maus bocados tentando entender os meus garranchos. O consolo é que nunca havia erros de Gramática, concordância ou de acentuação! Eu sabia todas as regras. Era um bom aluno.
Meu problema era a falta de talento mesmo. Plagiava trechos de autores que lia sem querer. Não tinha a menor originalidade! Confesso que não li, na época, Memórias póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro, Memórias de um sargento de milícias, O quinze, Os sertões, A hora da estrela, Capitães de areia, Grande sertão: veredas. Mas adorava toda a coleção do Para Gostar de Ler da editora Ática. Lia tudo de Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Lourenço Diaféria, Edgar Allan Poe, Luis Fernando Veríssimo, Lígia Fagundes Telles, Rudyard Kipling, Stanislaw Ponte Preta, Samuel Wainer. Gostava de crônicas pois eram mais curtas e, muitas vezes, eram divertidas!
Preparando-me para entrar na universidade, no cursinho, havia um professor de literatura que encantava os alunos com sua leitura, cheia de expressão e sentimento, de trechos dessas obras que rejeitei durante o ensino médio. Eram passagens maravilhosas de Dom Casmurro, O quinze, A hora da estrela, obras de Castro Alves, T. S. Eliot, Oscar Wilde, Scott Fitzgerald, Pirandello e outros autores do mundo todo!
Certo dia, depois de muitos anos, meu sogro me convidou para participar de um curso de oratória. Falar em público era uma experiência que nunca havia enfrentado. Fiquei aterrorizado com a situação de ter que falar pessoas estranhas. No primeiro dia do curso tínhamos que discursar sobre um assunto que conhecíamos muito bem: falar de si próprio! Depois de ver os discursos dos colegas, eu percebi que todos tínhamos dificuldades em falar sem nenhum texto em mãos: alguns falavam muito baixinho, gaguejavam, ficavam desconfortáveis, choravam e não tinham coragem de ser mais claros em suas ideias. Quanto mais rápido terminassem, melhor. Eu também estava assim.
Porém, com o passar do tempo, podia-se sentir a evolução dos participantes. Melhoravam sua postura, os assuntos eram mais divertidos e interessantes. A razão disso é que para se falar bem é preciso estar preparado. E para estar preparado é preciso ter escrito e reescrito várias vezes o que iria discursar. Claro!
Creio que, para meu desenvolvimento em leitura e escrita foi necessário alguém ou alguma coisa (mãe, o professor do cursinho, o curso de oratória) que apresentasse as obras para mim. A oralidade foi o estímulo necessário para estimular a outras competências.

Prof. José Carlos Suzuki

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